4.9.10

Delicatessen


I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

V

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.
do desejo: Hilda Hilst

23.8.10

free at last


I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly

i'm a bird now: Antony and the Johnsons

22.10.08

sou eu mesmo


Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você (...) Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem da minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado?

(...)

Tenho uma paz profunda (...) somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim mesmo. Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz.

(...)

Bom, apesar de meu ar duro, que aliás vem também do fato de meu nariz ser tão reto, apesar de meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso o que certamente me dá uma grandeza, essa grandeza que você percebe e de que tem medo.

(...)

Meu amor pelo mundo é assim: eu perdôo as pessoas terem um nariz mal feito ou terem lábios finos demais e serem feias – todo erro dos outros e nos outros é uma oportunidade para mim de amar. Veja, não permito que ninguém mande em mim (...)

(...) ninguém pode fazer uso do que os outros são (...)

uma aprendizagem ou o livro dos prazeres: Clarice Lispector

9.10.08

uma carta




Minha noite é como um grande coração batendo. São três e meia da madrugada. Minha noite é sem lua. Minha noite tem olhos grandes que olham fixamente uma luz cinzenta filtrar-se pelas janelas. Minha noite chora e o travesseiro fica úmido e frio. Minha noite é longa, muito longa, e parece estender-se a um fim incerto. Minha noite me precipita na ausência sua. Eu o procuro, procuro seu corpo imenso a meu lado, sua respiração, seu cheiro. Minha noite me responde: vazio; minha noite me dá frio e solidão. Procuro um ponto de contato: a sua pele. Onde você está? Viro-me para todos os lados, o travesseiro úmido, meu rosto se gruda nele, meus cabelos molhados contra as minhas têmporas. Não é possível que você não esteja aqui. (...) Meu corpo, esse azarão mutilado, quer esquecer-se por um momento no seu calor, meu corpo pede algumas horas de serenidade. (...) São quatro horas da madrugada. Minha noite me esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. (...) Minha noite quer ter asas e voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. (...) O silêncio ouve apenas as minhas vozes interiores. (...) Você me faz tanta falta. E suas palavras. E sua cor. Logo o dia vai raiar.

cidade do méxico, 12 de setembro de 1939: Frida Kahlo

6.10.08

1912


O caso era que Tônio amava Hans Hansen, e já sofrera muito por causa dele. Aquele que mais ama é o subjugado e tem que sofrer. Esta lição simples e dura sua alma de catorze anos já recebera da vida. E ele era de um feitio que guardava bem tais experiências, tomava nota interiormente, por assim dizer, e, de certo modo, tinha sua alegria nelas, sem obviamente, dirigir-se por elas e delas tirar proveitos práticos.

(...)

“Por que sou tão esquisito, em conflito com tudo, em desavença com os professores, e estranho entre os outros meninos? Olhe os alunos, os bons e os de sólida mediocridade. Não acham os professores engraçados, não fazem versos e só pensam em coisas em que a gente afinal pensa e que podem ser ditas em voz alta. Como se devem sentir bem comportados e de acordo com todos! Deve ser bom... Mas que passa comigo? E como tudo terminará?”

Este procedimento de observar-se a si mesmo e em sua relação à vida desempenhava um papel importante no amor de Tônio por Hans Hansen. Amava-o primeiro porque era belo; mas depois porque lhe parecia, em todos os pontos, seu oposto e contraste.

(...)

Poder-se-ia, com alguma audácia, chegar à conclusão de que é preciso ter estado em alguma prisão para se tornar poeta.

tônio kroeger: Thomas Mann

17.9.08

números do desassossego_3




17. são horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. vejo-me no meio de um deserto imenso. digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

livro do desassossego: Fernando Pessoa

números do desassossego_2



303. (...) a qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade.

202. (...) um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo o que fomos – lixo de estrelas e de almas – será varrido para fora da casa, para que o que há recomece.

304. a fé é o instinto da acção.





2. tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou sonho, para que ninguém nasceu. resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.

5. (...) lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços a régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.

5. (...) mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.

livro do desassossego: Fernando Pessoa

15.9.08

números do desassossego_1




26. dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.

5. (...) com os olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos.

78. (...) não é tédio o que se sente. Não é mágoa que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento.





18. (...) que mais posso pedir aos Deuses ou esperar do destino? (...) porque sonhos tem toda gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco.

8. estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego (...).

6. nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. (...) aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida! A dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!...


livro do desassossego: Fernando Pessoa

21.4.06

mountain 3
























Eu vi Eurídice caindo da montanha. Vi quando partiu. Pensou que eu estava dormindo e foi sem se despedir. Mas ouvi o ruído da porta se fechando. Da janela pude vê-la diminuindo na paisagem até desaparecer por completo por entre as árvores. Eurídice se partiu em pedacinhos.
Meus olhos ficaram cansados de esperar que surgisse no meio daquele matagal. As semanas passaram sem eu me dar conta, os meses, os anos. Eurídice nunca mais voltou nem eu deixei de esperá-la. Meus versos molharam numa chuva. Meus olhos secaram na primavera. E então, pela primeira vez, em anos, pude colher as flores que nasceram no meu jardim.

sem título III


É você mais uma vez faltando na minha vida... Na sexta-feira quando cheguei em casa e estava tudo em ordem, como tinha deixado de manhã, estranhei. Aquela não parecia ser a minha casa, nem o meu início de fim-de-semana. Tinha um recado seu na secretária-eletrônica, mas era para a nossa faxineira. Não tem nada a ver ficarmos separados. Essa distância é um erro. Mas quem não comete erros? Na verdade, errei não indo embora quando você me deixou na mão pela primeira vez.
Agora despencou uma chuva. A cidade ficou embaçada e eu senti o peso da solidão a que me coloquei. Milles Davies está tocando no rádio. Os carros passam lentos pela orla e as poucas pessoas que estão na rua, correm para lugares secos. A Lagoa está cinza e vazia. Parece comigo hoje de manhã. Você é tão orgulhoso e eu falso-suficiente. A minha cama é grande demais e o espelho do banheiro ficou pequeno para nós dois. Nem um e-mail seu na minha caixa, nem um torpedo, nem um telefonema. Assim eu vou te esquecer logo. Vou comprar um gato, umas flores e uma roupa pra sair sexta à noite. Vou juntar suas coisas numa caixa e deixar na portaria do seu prédio. Eu vou fingir que não te amo mais nem sinto saudades. E vou tentar ser feliz com minha cama vazia de você.